mercredi 21 janvier 2015

Democratização «através» da crise?

 E aqui chegados, não há como não concluir: este ano será provavelmente o mais quente desde que a guerra terminou. E aquele que o MPLA terá mesmo que «se pôr a pau», sob pena de ser duramente castigado. Mais: aquele em que a Oposição tem as maiores possibilidades de se aliar à Sociedade Civil e pressionar o MPLA até às úl­timas consequências. E isto tudo pelo que ela menos esperavam: a crise causada pela baixa dos preços do petróleo.


As medidas impopulares, as dificuldades acrescidas em famílias que «têm muito pouco, quase nada», parafraseando o próprio PR, e o desemprego, que certamente subirá em espiral, vulnerabilizam o MPLA como nada antes o fez. Por uma razão muito simples: já não lhe basta a maioria no Parlamento; tem também que assegurar o apoio das «massas populares», algo difícil para a sua nova posição de «mensageiro da desgraça».

Do outro lado da barricada, teremos uma Oposição que poderá dizer a qualquer momento: «se vocês não negoceiam connosco, traremos o povo às ruas». Esse exercício da Oposição começará já nos próximos dias, com a revisão do nado-morto que é o OGE de 2015. Se o executivo não acomodar as exigências da Oposição no aumento das despesas na Educação e na Saúde, e em maior investimento nos sectores de diversificação da economia, como a Agricultura, as Pescas e Indústria, Energia e Águas, assim como uma drástica redução nas despesas alocadas à Defesa e Segurança  as suas queixas habituais – vão ensaiar este passo, nem que seja para ver o que dá. Isso, se as suas próprias quezílias internas não os distraírem.

Por outro lado, a fiscalização da acção do executivo deixará de ser um conceito mais ou menos abstracto para o cidadão: no corte dos subsídios, exigirão em troca o corte nas mordomias dos dignitários e gestores públicos. Nos car­ros comprados pelo Estado, nos trabalhadores postos à sua disposição, na gasolina para os seus carros, na manutenção das suas vivendas… e por aí adiante. E na ostentação de riquezas a que mui­tos deles são useiros e vezeiros. Daí que, as queixas da Oposição de que o executivo não pode ser fiscalizados pelos eleitos do Povo já não colherão a indiferença que mereceram até agora. Mais uma vez, as ruas poderão ser serão uma alternativa para a luta política, caso ela se revele inviável no Parlamento.

Resumindo e concluindo: abriu-se, inesperadamente, para a Oposição e a Sociedade Civil, uma ampla oportunidade de negociação política para que possam efectivamente fazer passar aspec­tos da sua agenda, não obstante a maioria do MPLA no Parlamento.


Mas, o mais importante nem sequer é isso. É que, depois desta crise que se adivinha mais ou me­nos longa, o espectro político, os seus actores e modus operandis, assim como a participação dos cidadãos não mais será o mesmo. O espaço político poderá entrar num processo mais acelerado de democratização, isso «através» da crise causada pela baixa do preço do petróleo. É engraçado, no mí­nimo.

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