mardi 20 octobre 2015

A greve da fome que abala Luanda

O poder angolano tem dificuldade em lidar com contestatárioscom laços familiares dentro do próprio MPLA
Em 1977, o pai, João Beirão, fora um dos jovens intelectuais angolanos a alistar-se como agente da mal afamada Direcção de Informação e Segurança de Angola - DISA.
Trinta e oito anos depois, por ironia da história, o filho, Luaty Beirão, acaba de se converter, há três meses, num dos prisioneiros políticos mais célebres do sistema que o pai ajudou a erguer.


Novo símbolo da resistência ao regime de José Eduardo dos Santos, que catapultou o pai para o cargo de director da sua fundação - FESA - o rapper angolano, de 33 anos, faz parte de um grupo de 15 jovens encarcerados sob a acusação de envolvimento numa alegada tentativa de golpe de Estado. A ausência do Presidente  José Eduardo dos Santos na abertura do ano legislativo na quinta-feira, "por indisponibilidade temporária" gerou uma imediata vaga de especulações. O discurso presidencial acabou por ser lido pelo vice-presidente, Manuel Vicente que tentou desvalorizar a detenção dos activistas para privilegiar, em contrapartida a firmeza da estabilidade política interna.

"O discurso serviu, em parte, para exaltar o trabalho dos serviços de segurança" - disse ao Expresso Diamantino Fonseca, professor universitário.

Rejeitando quaisquer tipos de cedência a pressões externas, o Presidente angolano não deixou de advertir por interposta pessoa " entidades estrangeiras interessadas em instalar o caos e a desordem para provocar a queda de partidos políticos ou de dirigentes com os quais não simpatizam".
A critica encerra uma alusão indirecta à eurodeputada do PS Ana Gomes, eleita inimiga de estimação de Luanda, por causa das suas críticas publicas à forma como o sistema tem lidado com as manifestações de solidariedade para com Luaty Beirão e os seus companheiros.

                             Visibilidade e "disparates"
Apesar da condenação dos ativistas estar rodeada de carga "patriótica", há distanciamento, mesmo em círculos afetos ao regime. "Ridícula" e "bizarra", são as palavras mais usadas, em certos meios da sociedade para satirizar a alegada intentona dos jovens detidos.

Em meios moderados do partido governamental, a estratégia utilizada pelo regime, está a causar tensão, pois o poder angolano está confrontado com um grupo de contestatários com ramificações familiares dentro do próprio MPLA.
"Esse é que é o dilema e quem está a dar visibilidade a este caso são os nossos próprios disparates" - disse ao Expresso um deputado do MPLA, que pediu o anonimato.

Partilhando de ideias que estão a provocar a ira dos serviços secretos angolanos, a causa de Luaty Beirão se, em certos círculos da sociedade angolana derruba barreiras e provoca algumas paixões, noutros meios mais radicais do regime, está a gerar, em sentido inverso, sentimentos de ódio.
"Luaty passou a ser odiado e a sua morte poderia ser um alívio para o partido do Presidente Eduardo dos Santos. Teria menos um crítico com que se preocupar..." diz o ativista político, Rafael Marques.

O crescente movimento de solidariedade, dentro e fora do país, deixou, entretanto, de ser indiferente para o regime de Luanda. Receando ter de passar uma certidão de óbito em nome de Luaty, as autoridades preocuparam-se em exibir imagens televisivas sobre o seu estado de saúde.

                            À espera do pior

Os advogados de defesa dos ativistas continuam a protestar contra o excesso de tempo de prisão preventiva, que recai sobre os seus constituintes.

As autoridades negam categoricamente essa acusação. Em resposta à multiplicação de vigílias nas igrejas de Luanda, prontamente reprimidas pelas forças de segurança, o juiz-presidente do tribunal provincial de Luanda, Domingos Mesquita disse que "os juizes" em Angola "são independentes e só devem obediência à lei e à sua livre consciência"...

"Agora, só o juiz da causa tem competência para decidir se eles devem, ou não, aguardar julgamento em casa" - defende o jurista José Carlos Miguel.

Profundamente debilitado e internado agora no hospital-prisão da cadeia de São Paulo em Luanda, o rapper angolano recusa interromper a greve de fome iniciada há vinte e cinco dias e continua a rejeitar receber tratamento médico.

Gustavo Costa
Correspondente em Luanda


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